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Vivemos, então, no drama de criarmos coisas interessantíssimas... que logo em seguida começam a nos oprimir. Entre essas coisas, ainda que da melhor qualidade, estão as teorias psicanalíticas, que ninguém ainda bem disse ou bem sabe o que são. 

Não se pode provar que antes de Freud a psicanálise não existisse avant la lettre. Existia certamente sem nome próprio ou precisa definição, tendo funcionado por aí durante milênios talvez. 

Hoje, os neuróticos são outros e não adianta disparar mísseis de Édipo contra as pessoas pois elas só morrerão é de rir e têm a resposta já pronta, pois que já conhecem a enedota de antemão. Tudo isto já ficou banal. 

Estamos numa época em que as pessoas estão muito assustadas com esse verdadeiro terremoto de idéias. Quanto a mim, acho divertidíssimo, acho ótimo que a explosão esteja funcionando, pois não é possível que não haja um mundo possível melhor do que esta joça em que vivemos. 

Qualquer sucesso deve imediatamente nos lembrar que tem que estar compartilhado com os sintomas vigentes, caso contrário não seria assim aplaudido. 

O falicismo a que a psicanálise foi reduzida, também não está resolvido na psicanálise de Lacan. 

Coisa difícil para esta nossa espécie saber o que é e como funciona a sexualidade, ou mesmo o sexo enquanto tal - e a morte à qual ele sempre se atrela. 

Não aceito o teorema da castração como é colocado, mas os meus não são os argumentos daqueles e daquelas que foram contra Freud, e afirmo que o Falo, assim colocado, na verdade acabou por se tornar um fetiche da psicanálise. 

Nossa posição é a de derrogar o Falicismo. Não é possível uma sociedade deixar de ser racista se, no âmago de sua própria idéia do que seja, por exemplo, diferença sexual, ela continua viciosamente machista. 

Precisamos, sim, de um aparelho teórico que torne a psicanálise consentânea com o mundo que está vindo por aí. 

Nossa posição é o teorema da Pulsão: o que há é desejo de não-Haver, no psiquismo. E não-Haver não há. Então, não adianta desejá-lo, a não ser por insistência no Impossível, mas este jamais comparecerá. 

A libido quer o Impossível para conseguir (tudo) o que é possível - mas justamente não conseguirá o Impossível. 

Na morte, se a gozássemos absolutamente, conseguiríamos (tudo) o que desejamos, que é o não-Haver, mas não há o lugar desde onde se possa conseguir tamanha proeza, tamanha façanha. 

Vocês podem ficar um tanto perplexos, pois estão cansados de ver necrotérios, cemitérios, gente que morre, atestados de óbito, mas que experiência efetiva algum de nós tem mesmo da Morte?. 

O que chamamos de Morte é na verdade uma experiência de perda (...). 

Experiência de Morte nem mesmo o morto tem. Antes de chegar a Ela, ele já se
ausentou. 

Cada caso é um caso. E cabeça de analista não é lata de lixo das formações culturais. Ele tem que ter a mente capaz de abertura suficiente para poder escutar cada sintoma em sua peculiaridade - e não projetar Édipos e outras estorietas sobre pessoas que eventualmente nada têm a ver com isso. 

O machismo não é a opressão dos homens sobre as mulheres, e sim a opressão, sobre homens e mulheres, de uma idéia que diz que os homens são melhores, no que eles acreditam - e elas também acreditam. 

Existe sim orientação sexual, mas não a que eu queira dar a outros. Há que descobrir qual é. 

Existem muitas pessoas que transam com todos os sexos, e destes não podemos dizer que são homo ou hétero, e sim que circulam à vontade. Aliás, gostar só dos dois sexos não é tudo. 

Todas as pieguices que cada um de nós tem por dentro - quem sou, como sou, como sinto, meus amados sintomas, minha família, minha pátria -, tudo isso vai logologo para o brejo, mais depressa ou mais devagar, como parece que já está indo. 

Termos como neurose, histeria, neurose obsessiva, perversão, psicose, que estamos acostumados a usar até mesmo no nível do folclore contemporâneo, são comprometidos demais com um passado de má qualidade. 

Como estamos tratando da questão da existência e da sobrevivência da psicanálise, acho que, tomada em suas bases mais abstratas, é um pensamento ao mesmo tempo fundamental e de ponta para o próximo século, que será o século II da Era Freudiana. 

O ruim do capitalismo, como já apontou Deleuze, não é ser capitalismo, e sim não soltar as suas amarras e funcionar plenamente como tal. 

Como as pessoas não estão preparadas para este novo Novo Mundo que está caindo sobre nossas cabeças, prepará-las é uma tarefa de cura que, em última instância, é uma tarefa política. 

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